Sábado, Julho 08, 2006

Carta enviada ao Sílvio de Abreu





Prezado Silvio

Desculpe a intimidade, mas sabe como é, são tantos anos vendo-o entrar em minha residência que já o vejo como um primo do interior, que de tempos em tempos vem passar uma temporada em casa. Intimidade essa que me fez ter vontade de escrever e contar-lhe como estou decepcionada com esse mês de julho...

Eu também fazia parte dos milhões de brasileiros que no dia primeiro, sentaram-se em frente às suas tvs e assistiram à decepção oferecida gratuitamente pela seleção brasileira. Em entrevista pós-jogo, vi o Robinho falando que o brasileiro está acostumado a vencer sempre e por isso estava decepcionado, mas cá pra nós, isso não é verdade. Primeiro que brasileiro pra vencer qualquer coisa, tem que matar um leão por dia - seja para conseguir pegar um ônibus pela manhã, seja por vezes pra conseguir trazer comida pra dentro de casa. Segundo que, o que queremos na verdade, é ver em campo, a garra e a luta que temos em nossas vidas, em nosso cotidiano. Não queríamos perder daquela forma, sem coragem, sem atitude, sem valentia... Enfim a arte não imitou a vida.

Sabe Sílvio é na arte e na diversão que nosso povo se vinga da dureza do dia-a-dia... É nela que buscamos sair desse mundo que nem sempre é pai, pra um mundo onde as coisas funcionam, dão certo. Acho que não me fiz clara ainda, não é?

Peço desculpas, realmente o poder de síntese não é o meu forte. Talvez por isso também seja uma noveleira assumida, goste de tramas longas, comédias, romances confusos, mistérios, enigmas. Lembro de você, visitando-nos quando ainda era bem pequena com Guerra dos Sexos. Lembro que minha mãe parava tudo o que estava fazendo e sentava conosco na frente da TV e ríamos horrores de uma senhora que parecia muito com a Dona Bia Falcão, acho até que devem ser irmãs, a diferença é que aquela era boa, me fazia rir.

Ontem, como outros tantos milhões, também parei tudo e sentei em frente à tv para assistir o final de Belíssima, e confesso: senti uma sensação semelhante ao do primeiro dia do mês: a de que não valeu à pena tanta torcida, tanta expectativa. Pensei que se essa novela tivesse passado na época de Guerra dos Sexos, minha mãe teria muitos problemas em me explicar o porque uma pessoa que mata, rouba, suborna, trai e mente acaba seus dias muito rica, morando de frente para a Torre Eiffel com um garotão lindo. Sim porque lembro bem dela me explicando que o crime não compensa, e quem não respeita isso, acaba mal e eu, acho que você já deve ter percebido, nunca fui uma criança que se contentou com respostas mal explicadas.

Enfim, tudo isso é pra lhe dizer que eu esperava sim que a Bia tivesse seu castigo. Queria poder sentar com minha filha e falar, olha filhinha, ta vendo o que acontece com esse tipo de gente? Sei que talvez isso pareça hipocrisia, já que vemos na vida real isso, por vezes, acontecer, mas Sílvio isso o que você faz é arte e como eu já disse, é nela que esperamos extravasar nossos desejos mais profundos. É nela que nos permitimos até perder, mas com honra, com brio. É nela que esperamos ver as pessoas boas se casando na Grécia em meio a um pôr-do-sol inesquecível e serem felizes para sempre e é nela também que esperamos que as pessoas más provem de seu próprio veneno, porque assim podemos sonhar que a vida imite a arte.

Carine Tebar


Queridos, não sumi... É só muito trabalho. Mas eu volto! Eu sempre volto!

Bjs

CA


Postado por Carine às 2:54 PM.

Deixe a Carine feliz e comente aqui!




Template feito para Meus Temas por Carine Tebar. Proibida cópia total ou parcial.