

Aos Navegadores:
Pra vocês, que são como eu, a partir da língua - e a nossa língua é tudo, pois somos o que somos traduzidos nela -, faço um pedido: não desistam.
Não sucumbam, por favor, diante do sutil terrorismo que sofremos, toda a nação, nascida e criada sem pai nem respeito; todos tentados a crer que não prestamos e que merecemos esse mar de mentiras e roubalheira que nos cerca.
Não aceitem, eu peço, nem sintam-se coitados, porque não somos. Disseram tanta merda para nós, ainda tão jovens como pátria, que traumatizamos. Debocharam de todos os fatos, reverteram todas as ordens e nos fizeram acreditar que descendemos de um povo burro, treinando-nos com essas burras piadas lusitanas até que as repetíssemos sem pensar. Sem perceber que, assim, minamos a nossa auto-estima, eliminando num riso bobo qualquer chance de darmos voz às nossas dúvidas e fins as nossas dúvidas.
Navegadores, portanto, somos nós, alguns muitos brasileiros, que conseguimos herdar alguma coragem, suficiente para ter um sonho. E que, com a disciplina possível, estamos alcançando parte dele. Como uma terra nunca visitada, onde enfim descobrimos quem realmente somos.
Raiva é o que sentimos, sim, pois olhamos em volta e vemos uma escória de quinta categoria nos assaltando e nos brindando com suas banhas feitas de soberba e orgulhosa canalhice. Cheios de contas no exterior, fazendas no interior e casas com praias particulares. Todos rodeados de pura desgraça, já que somente ela acompanha aqueles que saqueiam os pobres sem se constranger. Ela estará na insônia, nos tumores ou na ressaca de champanhe.
Eu, eternamente uma navegadora de primeira viagem, pelo menos aprendi que navegar é o que resta e continuo pagando mensamente todos os milhares de impostos que sempre paguei. Porque preciso da honestidade para exigir honestidade. E da liberdade para seguir na luta, pois parece não haver prisão que contenha tipos como Malufs e Mendonças.
Gostaria que me dissessem para onde vai tudo isso que entrego, enorme pedaço daquilo que ganho com o meu trabalho. Roubam, eu sei, mas será que não sobra nada? Para evitar que as cidades virem o caos que viraram? Que menores só encontrem respeito no crime? Que crianças cheirem cola ou qualquer bosta para conseguir encarar a realidade?
Beleza ¿ é o que os estrangeiros dizem encontrar em nossa terra. Beleza que, no momento, não consigo ver. Por isso, sigo navegando. E peço aos amigos que não esmoreçam, atualizando nosso velho lema: navegar é preciso, viver nem tanto.
Fernanda
Fernanda Young é co-roteirista de OS NORMAIS e autora de vários livros, entre eles AS DORES DO AMOR ROMÂNTICO (Ediouro)
Fonte: REVISTA CLAUDIA, maio 2006
Foto: Bob Wolfenson
Fiz questão de copiar tudo da revista porque esse texto retrata toda minha indignação e visão de nossa situação atual. Não gosto de escrever aqui nem de futebol, religião ou política, já que isso trás muita polêmica (como se falar de sentimentos e sensações não trouxessem não é? rs) mas realmente esse texto é imprescindível. Todos deveriam ler.
Beijos e excelente semana
CA

